Thursday, February 28, 2013

Erro de português - Citação 8

28/2/13

Citação 8
28/2/13



Erro de português


Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena! Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

(Oswald de Andrade, Erro de português, 252)

Esta poema epitimia muito bem a noção modernista pelo que aprendemos sobre a época até agora. Uma coisa que achei interessante foi o contrasto entre essas dois lados. Um, a verdadeiro apresenta os europeus como realmente eram: uma cultura é estilo de vida que se impôs na cultura dos nativos. E o outro que se estivesse chovendo uma outra cultura estaria dominante ou seja, a do povo indígena. Essa justaposição humorística tem como propósito zombar historia como realmente aconteceu.  

Também achei a estrutura do poema notável porque embora não seja poesia concreta tem algumas características dessa forma. Por exemplo o autor facilmente podia ter colocado o último verso com o verso anterior. Mas por ele ter deixado como está parece estar dizendo que depois tudo que fez e com toda a sua grandeza e cultura, no fim ficariam só. Foi por somente uma mera coincidência que as coisas correram no jeito que conhecemos hoje. Foi só por causa de uma chuvinha. Nada mais. 







Thursday, February 21, 2013

Pluvial - Citação 7

21/2/13

Citação 7

Augusto de Campos, Pluvial (1959)


Esse poema foi um dos mais interessantes do semestre até agora. Sabia que a forma de um poema podia transmitir uma certo porção do sentimento ou como discutimos na aula, "nomear coisas difíceis de nomear." Mas na poesia concreta, a maioria da mensagem se transfere pela forma. Foi exatamente isso que gostei, essa união das palavras e forma que tem um efeito sinérgico e acaba criando uma forma de arte mais potente.  

Outra coisa que achei interessante é como o poeta arranjou as palavras do poema para evocar a imagem da palavra. O "Pluvial" corre verticalmente assim como a chuva. Essa contínua, indo para baixo até transforma-se no fluvial que corre mais horizontalmente como um rio que é indicada pela definição. Quando percebi essa ligação entre a forma e palavras consegui muito melhor entender o que Augusto de Campos estava tentando fazer com "Pluvial". Por que todos os poemas não têm essa ajudinha visual da poesia concreta? 









Thursday, February 14, 2013

O Morcego - Citação 6


14/2/13


Citação 6


Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer.  Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto! 


(Augusto dos Anjos, O Morcego, 214)
                                                 



Ao ler "O Morcego" achei muito aparecido com a obra de Edgar Allen Poe, "The Tell-Tale Heart" que me tocou quando o li pela primeira vez no colégio. O poder da culpa, ou como dos Anjos descreve em sua obra, "A Consciência Humana" de fazer o ser humano sentir vulnerável e que precisa de defesas. Essa luta de se livrar da consciência manifesta-se no verso "Vou mandar levantar outra parede..." e também no mesmo tempo serve para ilustrar a futilidade de tentar escapar desses sentimentos.

O uso freqüente da metonímia em "O Morcego" faz os sentimentos do poema muito mais forte. Na sexteto final deste poema quando exclame a narradora que a consciência humana é como um morcego. Usar a imagem de um morcego ajuda o leitor a sentir o peso que vem à noite e que por mais que tente fugir não consegue. O verso, "E vejo-o ainda, igual a um olho" que também usa metonímia contribui esta impressão de que a fuga é impossível que acho era sua intenção em escrever "O Morcego".





Wednesday, February 6, 2013

Medo da Eternidade - Citação 5


6/2/13

Citação 5




Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.   (Clarice Lispector, Medo da Eternidade)



Bom, como já faz um tempo que fico analisando e escrevendo sobre os contos da Clarice Lispector resolvi pensar mais um pouco nesta parte da crônica. A primeira coisa que me chamou a atenção foi a simplicidade que a escritora utilizou ao transmitir esta memória de sua infância. Achei isso muito apropriado e apóia a ambiente que a Clarice quis passar. Quando descreve a sua experiência depois percebe que mastigar para sempre talvez não seja tudo que esperava, a linguagem é bastante direto: "Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!" Dava para sentir como criança que leva tudo a sério.

Além de só usar uma linguagem simples, achei interessante como se mistura pensamentos muito profundo sobre a eternidade e sentimentos de medo com as preocupações infantis. A Clarice descreve como não quer admitir que não está sentindo o que acha que deve, "Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade." Eu me lembro de vezes na escola e em minha infância que tinha alguma duvida, mas por não quer aparecer boba não perguntei. Mas esses sentimentos fortes são misturados com os de alegria e espanto, "parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer." Achei esta justaposição importante por que é assim nossa infância: uma mistura de inocência e uma crescente maturidade. 












Friday, February 1, 2013

A Imitação da Rosa - Citação 4


24/1/13

Citação 4


Antes que Armando voltasse do trabalho a casa deveria estar arrumada e ela própria já no vestido marrom para que pudesse atender o marido enquanto ele se vestia, e então sairiam com calma, de braço dado como antigamente. Há quanto tempo não faziam isso?
Mas agora que ela estava de novo "bem", tomariam o ônibus, ela olhando como uma esposa pela janela, o braço no dele, e depois jantariam com Carlota e João, recostados na cadeira com intimidade. Há quanto tempo não via Ar­mando enfim se recostar com intimidade e conversar com um homem?  (Clarice Lispector, A Imitação da Rosa, 52)



No conto A Imitação da Rosa de Clarice Lispector a autora leva o leitor a uma época no Rio de Janeiro nos anos sessenta onde as mulheres de classes alta media vivem num ciclo de compromissos sociais e tarefas de casa e onde a aparência e elegância são as mais valorizadas qualidades requeridas duma “senhora distinta.” Mas nessa corrida a protagonista da Lispector, a Laura, não consegue ser o que ela acha a sociedade, seu marido, e amigos esperam dela e passa por diversas dificuldades por isso. Em A Imitação da Rosa são utilizadas alguns símbolos mas um dos mais possante deles é o copo de leite, que representa um espécie de sacramento pelo qual tudo que a Laura esperar recuperar da vida ideal possa ser renovada.
O narrativo abre com o algumas descrições das responsabilidades que dá proposita à vida da Laura incluindo cuidar de sua casa, esperar a volta do marido, e sair para encontros com amigos. Mas assim que começamos a entender a vida em que ela viva, aprendemos que também existe um sentimento de culpa por ter se desviado fora destes limites certinhos que ela fez por si. Na superfície o copo de leite faz parte de sua recuperação física. “Se o médico dissera: "Tome leite entre as refeições, nunca fique com o estômago vazio pois isso dá ansiedade" — então, mesmo sem ameaça de ansiedade, ela tomava sem discutir.” Mas por trás o leitor rapidamente percebe que o simples copo de leite significa muito mais para a Laura do que um alimento. Representa uma em que ela consegue voltar à normalidade de que ela anseia. Assim como o pecador faz a comunhão para se voltar à presença de deus, a Laura toma o leite para que se sinta “sem ameaça de ansiedade.”