6/2/13
Citação 5
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim. (Clarice Lispector, Medo da Eternidade)
Bom, como já faz um tempo que fico analisando e escrevendo sobre os contos da Clarice Lispector resolvi pensar mais um pouco nesta parte da crônica. A primeira coisa que me chamou a atenção foi a simplicidade que a escritora utilizou ao transmitir esta memória de sua infância. Achei isso muito apropriado e apóia a ambiente que a Clarice quis passar. Quando descreve a sua experiência depois percebe que mastigar para sempre talvez não seja tudo que esperava, a linguagem é bastante direto: "Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!" Dava para sentir como criança que leva tudo a sério.
Além de só usar uma linguagem simples, achei interessante como se mistura pensamentos muito profundo sobre a eternidade e sentimentos de medo com as preocupações infantis. A Clarice descreve como não quer admitir que não está sentindo o que acha que deve, "Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade." Eu me lembro de vezes na escola e em minha infância que tinha alguma duvida, mas por não quer aparecer boba não perguntei. Mas esses sentimentos fortes são misturados com os de alegria e espanto, "parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer." Achei esta justaposição importante por que é assim nossa infância: uma mistura de inocência e uma crescente maturidade.

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