24/1/13
Citação 4
Antes que Armando voltasse do trabalho a casa deveria estar arrumada e ela própria já no vestido marrom para que pudesse atender o marido enquanto ele se vestia, e então sairiam com calma, de braço dado como antigamente. Há quanto tempo não faziam isso?
Mas agora que ela estava de novo "bem", tomariam o ônibus, ela olhando como uma esposa pela janela, o braço no dele, e depois jantariam com Carlota e João, recostados na cadeira com intimidade. Há quanto tempo não via Armando enfim se recostar com intimidade e conversar com um homem? (Clarice Lispector, A Imitação da Rosa, 52)
No conto A Imitação da Rosa de Clarice Lispector a autora leva o leitor a uma época no Rio de Janeiro nos anos sessenta onde as mulheres de classes alta media vivem num ciclo de compromissos sociais e tarefas de casa e onde a aparência e elegância são as mais valorizadas qualidades requeridas duma “senhora distinta.” Mas nessa corrida a protagonista da Lispector, a Laura, não consegue ser o que ela acha a sociedade, seu marido, e amigos esperam dela e passa por diversas dificuldades por isso. Em A Imitação da Rosa são utilizadas alguns símbolos mas um dos mais possante deles é o copo de leite, que representa um espécie de sacramento pelo qual tudo que a Laura esperar recuperar da vida ideal possa ser renovada.
O narrativo abre com o algumas descrições das responsabilidades que dá proposita à vida da Laura incluindo cuidar de sua casa, esperar a volta do marido, e sair para encontros com amigos. Mas assim que começamos a entender a vida em que ela viva, aprendemos que também existe um sentimento de culpa por ter se desviado fora destes limites certinhos que ela fez por si. Na superfície o copo de leite faz parte de sua recuperação física. “Se o médico dissera: "Tome leite entre as refeições, nunca fique com o estômago vazio pois isso dá ansiedade" — então, mesmo sem ameaça de ansiedade, ela tomava sem discutir.” Mas por trás o leitor rapidamente percebe que o simples copo de leite significa muito mais para a Laura do que um alimento. Representa uma em que ela consegue voltar à normalidade de que ela anseia. Assim como o pecador faz a comunhão para se voltar à presença de deus, a Laura toma o leite para que se sinta “sem ameaça de ansiedade.”
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